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July 20, 2019

Lac Blanc – Minha primeira trilha nos Alpes

No dia 6 de julho de 2019 realizei o sonho de fazer uma trilha nos Alpes até o Lac Blanc, que fica em Chamonix, na França. Neste post conto com detalhes como foi fazer uma trilha sozinho (sem gastar com guias ou teleféricos), e a experiência de ficar de frente com a maior montanha dos Alpes, o Mont Blanc.

Por que os Alpes?

Meu primeiro “contato” com os Alpes na verdade foi de longe, e de cima, em um voo de Milão para Londres, após conhecer o museu da Ferrari em Maranello. Meu voo partiu de Milão às 7h da manhã, então decidi dormir no aeroporto durante toda a madrugada, e assim que embarquei no avião, desmaiei no assento hehe.

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Foi quanto (literalmente) do nada, acordei e tomei um susto com o que estava aparecendo na janela do avião. Foi como se Deus me acordasse e dissesse: “Jonathan, acorda aí e vê uma coisinha que eu criei aqui…”

Alpes

A partir daí coloquei na minha cabeça que eu deveria conhecer os Alpes. E logo que cheguei no Brasil, comecei a pesquisar as melhores formas de visitar esse lugar. Descobri que na Suíça teria as melhores paisagens, e prontamente, também descobri que era um dos países mais caros do mundo para viajar. Isso me desanimou pacas.

“O milagre do Google Flights”

Depois do hype dos Alpes passar, fechei um intercâmbio para Malta, e graças ao Passagens Imperdíveis paguei R$1140 nas passagens de São Paulo para Milão ida/volta (SIM, CHORE).

O “problema” era que a passagem de volta era pra duas semanas depois do término do intercâmbio, então fui montando um roteiro de cidades que gostaria de conhecer, sempre levando em conta a economia.

Já havia colocado todas as cidades que queria no roteiro, a última era Budapeste e ainda havia uma janela de três dias para adicionar um novo lugar. Foi aí que abri o Google Flights, e selecionei as passagens mais baratas com partida de Budapeste nas datas que precisava. A mais barata era pra GENEBRA, e aqui começa todo meu relato sobre a trilha que fiz nos Alpes Franceses.

Primeiro destino: Genebra

Assim que vi que Genebra era a passagem mais barata a partir de Budapeste, pensei na hora: “É a oportunidade de eu finalmente fazer uma trilha nos Alpes”. Embora seja na Suíça, Genebra fica apenas a 1h30 de ônibus de Chamonix, a cidade-base do Mont Blanc.

Para melhorar, havia um ônibus de Chamonix para Milão (onde partia meu voo de volta) na data que precisava. A viagem era de quatro horas, mas, com wi-fi e tomada, quem se importa?! O bilhete custaria €18 pela Flixbus.

Então, o primeiro passo foi comprar um shuttle do aeroporto de Genebra para Chamonix. Paguei €22 pela Ouibus.

Chamonix/Argentière

Chamonix é uma cidade completamente voltada para a prática de trilhas, montanhismo e outros esportes radicais. É muito legal você chegar na cidade e encontrar vários viajantes com aquelas mochilas gigantes nas costas. Pra quem estava viajando há 25 dias com esse tipo de mochila, foi confortante hehe.

A maior fonte de informação foi o próprio site da cidade: Chamonix. Foi lá que escolhi a trilha que iria fazer: Argentière > Lac des Chéserys. Porém, meu grande interesse era chegar até o Lac Blanc, que conta com uma vista única do Mont Blanc. Pesquisando em alguns outros posts, vi que dava pra usar essa mesma trilha, que começa em Argentière.

Esse site é extremamente completo, nele havia a informação de que a área era uma reserva natural, ou seja, eu poderia encontrar Marmotas e Íbex pela trilha.

Aplicativo para trilhas

Já havia testado outros aplicativos de GPS, e achei o Komoot o mais completo e com a interface mais amigável. Nele é possível criar uma trilha pelo computador e depois salvar offline no celular. Marquei toda a rota por ele, e confesso que fiquei meio preocupado com as informações sobre preparo físico que ele me passou:

Trilha Lac Blanc - Komoot

Trilha escolhida. Era hora de achar um hostel barato e perto do começo da trilha em Argentière. Felizmente, esse hostel existe: Gite le Belvedere. Devido à alta temporada, três noites com café da manhã (de qualidade) custaram €60 pelo Booking, num quarto compartilhado com quatro pessoas.

Meu voo chegou na Suíça às 19h45, então corri para pegar meu shuttle que estava programado para partir às 20h20. O ônibus saiu pontualmente, cheguei no terminal de ônibus Chamonix Sud às 21h50. Com isso, tive que pegar um ônibus noturno de Chamonix para Argentiére.

O transporte público é de qualidade e pontual (como tudo na Europa). No site da empresa tem todos os horários e itinerários. O bilhete custou €3. Às 22h30, havia chegado no hostel.

Dia da trilha

Minha intenção era começar a trilha por volta das 7h30, logo após o café da manhã do hostel. Às 9h é aberto o teleférico que chega até metade da trilha, e como iria a pé desde o começo, perderia uma vantagem na subida até o Lac Blanc. Minha intenção era ser um dos primeiros a chegarem, para não ter ninguém aparecendo nas fotos 😀 .

Porém, vi no Google que o mercado mais próximo abriria apenas às 8h. Sendo assim, tomei o café da manhã e às 8h fui para o mercado. Felizmente, o comércio em geral na cidade é super barato, comprei lanche, snacks e duas garrafas de água de 1,5l por apenas €6.

Comecei a trilha oficialmente às 8h35. O clima estava nublado, mas imaginei que quando chegasse no topo, o céu estaria aberto. Logo no começo havia uma sinalização com as trilhas que partiam dali com o tempo de caminhada até o destino. Segundo a placa, chegaria no Lac Blanc depois de 3h30.

Sinalização

Decidi por não usar o Komoot para registrar a subida procurando salvar a bateria do celular. Vi que havia sinalização e o caminho da trilha estava claro, sendo assim, registrei a subida apenas no GPS do meu Amazfit.

Os primeiros 3km são de dificuldade moderada, há bastante subidas e o caminho todo é formado por pedras grandes (tem que ficar esperto para não torcer o pé). Devido a altitude (que neste momento já estava entre 1800m~2000m), era preciso parar em alguns momentos para recuperar o fôlego.

Câmera “zicada”

Sempre aproveitava essas paradas para tirar fotos, porém reparei que minha câmera não estava focando nos objetos (algum tempo depois FELIZMENTE percebi que sou um burro e que a lente não estava acoplada da forma correta no corpo da câmera). Depois de 1h30 de caminhada, você encontra esta cabana que forma uma bela composição na paisagem das montanhas. Devido ao “problema” da câmera, tirei essa foto pelo celular:

Cabana na trilha para o Lac Blanc

Um pouco mais pra frente, depois de uns 30 minutos de caminhada, há outra cabana, com umas rochas onde você consegue sentar para apreciar a paisagem. Fiz uma parada de 10 minutos para beber água e descansar.

Lac des Chéserys

A partir daí, são mais 30 minutos de caminhada tranquila em zigue-zague até a primeira grande paisagem da trilha: Lac des Chéserys. Confesso que fiquei meio sem palavras quando cheguei no local. A paisagem é surreal:

Lac des Chéserys

Neste momento estava acompanhando um casal de franceses que estava acostumado a fazer essa trilha. Perguntei se eles estavam indo ao Lac Blanc, disseram que não, mas me mostraram qual direção eu deveria seguir. Depois vi que era basicamente dar a volta pelo lago, hehe.

Lac des Chéserys até o Lac Blanc

Já no Lac des Chéserys é possível visualizar o Refuge du lac blanc, que fica na “borda” do lago, então você pode usar ele sempre como referência para saber qual caminho tomar.

Até lá os 30 minutos restantes de trilha contam com duas escadas verticais, e dependendo da estação do ano que você está fazendo a trilha, alguns caminhos curtos têm blocos de neve. Nada complicado para quem já participou de uma trilha antes.

Depois de 3h de caminhada (30 minutos antes do tempo previsto pela sinalização), cheguei no Lac Blanc.

Lac Blanc

Infelizmente devido ao clima, o lago ainda estava meio congelado, então não consegui uma foto do Mont Blanc refletido no lago. De qualquer forma, estava feliz demais pela paisagem, então nem esquentei muito pra isso.

Fiquei por volta de 1h no Lac Blanc. Basicamente andei por todos os lugares possíveis, tirei fotos e comecei o caminho de volta.

Ah, o caminho da volta…

Deixei meu celular no modo avião durante toda a subida. Queria de qualquer forma economizar bateria já que minha power bank estava descarregada. Porém, quando cheguei no Lac Blanc, vi que inacreditavelmente, naquele lugar isolado, eu tinha internet. A partir daí mandei mensagens e fotos para alguns amigos, e fiz a pior escolha da trilha: usar o Google Maps para a descida. Sinal de internet e GPS sincronizado. “Sucessagem”.

Segui descendo pelo mesmo caminho que subi até a cabana que havia parado para descansar anteriormente. Lembrava a direção que havia subido, mas o Google Maps me indicou outra que era supostamente mais rápida. Escolhi confiar no Maps, e durante grande parte da descida, estava acompanhado de outros dois casais franceses.

O caminho diferente da descida era também bem mais complicado, tive que descer por umas 10 escadas verticais com uma “bela” vista para o precipício. Ah, se eu tivesse medo de altura…

Encontro com dois Íbex na trilha

Em algum momento, vi que o primeiro casal de franceses havia parado para fotografar algo. Continuei meu caminho, e quando cheguei até eles vi dois Íbex bem próximos da gente. Missão cumprida, havia chegado até o Lac Blanc e ainda tinha conseguido ver um Íbex durante a trilha o/

Íbex

Depois de tirar as fotos e descer por mais 1h, chegamos num cruzamento da trilha. Havia apenas uma placa antiga mostrando a direção para Argentière. Os outros casais foram para a outra direção, só eu fui pro caminho de Argentière. Conferi no Maps e estava no caminho correto, o que poderia dar errado?!

Ficando perdido nos Alpes

Fiquei 30 minutos caminhando por essa rota, maravilhado de estar sozinho no lugar em um contato direto com a natureza… Fiz até um storie pra registrar o momento:

Nem 10 minutos depois disso, cheguei em um lugar em que o Google Maps dessincronizou. Olhava para o chão e a trilha ia para uma direção, o Maps mandava para outra… Decidi seguir a trilha. A vegetação nesta parte estava bem úmida, provavelmente havia chovido no dia anterior. Andei por mais alguns metros de descida, e em determinado momento, tomei um belo tombo.

A mochila amorteceu o impacto, ainda assim bati o cotovelo e ralei todo meu braço direito. O Maps continuava dessincronizado. Aí meu amigo, o desespero bateu. Olhava pelas árvores e via que a cidade ficava ainda muito abaixo de onde eu estava (vi depois que faltava descer mais uns 500m), daí comecei pensar: “Será que vou ser mais um daqueles que se perdem em uma trilha e viram notícia depois?”.

Ainda desesperado, voltei uns metros na trilha até o Maps sincronizar. Deu certo. Andei mais um pouco e o Maps pediu pra seguir à esquerda… Viro para a esquerda e dou de cara com uma rocha do tamanho de uma casa, bem no meio da suposta trilha. Tentei passar do lado da rocha mas havia algumas árvores caídas… Era impossível passar por ali.

Komoot salvando vidas

Decidi sair da navegação do Maps, abri o Komoot e vi que seu eu continuasse reto, em algum momento sairia pela rota que havia pego no caminho da subida. Nesta hora eu já nem caminhava mais, apenas corria em busca de uma nova trilha de volta para Argentière.

Felizmente, depois de 30 minutos perdido, saí num cruzamento. Lá tinha um placa nova, mostrando a direção para Argentière e dizendo que chegaria lá em 50 minutos. Segui o caminho aliviado porque era o mesmo caminho que havia feito na subida.

Finalmente, depois de quase 4h de descida, cheguei ao fim da trilha. Feliz demais por ter encontrado a saída, obviamente. No meu celular, restavam 12% de bateria.

Conclusão

Se você me perguntar “você faria essa trilha novamente?”, eu prontamente responderia que SIM!

Mesmo passando por esse perrengue de se perder, foi uma das melhores experiências da minha vida. Hoje já consigo lembrar e dar risada dos momentos de apuros.

Não vou pagar de chatão e falar pra você levar um GPS portátil quando for fazer uma trilha, porque os smartphones de hoje em dia já dão conta do recado. Mas tenha sempre em mente qual rota você deverá seguir tanto na ida quanto na volta.

Caso você queira fazer essa trilha, espero que o post tenha ajudado a tirar suas dúvidas! Se não, pode comentar aqui embaixo que eu prometo responder assim que possível 😉

Ahh, se você curte fotografia, veja este post de um profissional da fotografia, contando como foi fotografar o Lac Blanc.

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